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Controle


Nas regiões endêmicas, o controle da raiva dos herbívoros é realizado com a vacinação sistemática de 100% dos animais susceptíveis e o controle dos morcegos hematófagos.

Esse tipo de morcego refugia-se geralmente em furnas e fendas nas rochas. Também se adaptam com facilidade a ocas de árvores, bueiros, casas, minas e poços abandonados. Nas regiões onde a raiva é endêmica, há grupos especializados na identificação dos refúgios e captura dos morcegos hematófagos. Essas equipes procedem à captura desses morcegos, utilizando redes especiais armadas em torno dos currais ou nas entradas das cavernas. Os morcegos hematófagos, ao saírem à noite em busca de alimento, vão de encontro a essas redes, onde ficam presos. No dorso dos morcegos capturados é colocada pasta com anticoagulante. Os morcegos liberados voltam a suas tocas onde, ao se lamberem mutuamente, distribuem o anticoagulante pela colônia. Os morcegos que lambem o anticoagulante morrem de hemorragia generalizada. Segundo KOTAIT (1989), esse método tem a vantagem de reduzir em mais de 95% a mordedura nos bovinos ao fim de duas semanas, matando apenas os morcegos hematófagos, sem prejudicar os morcegos insetívoros nem outros animais que porventura vivam no interior dos abrigos.

O simples combate ao morcego hematófago não resolve o problema da raiva dos herbívoros. É necessário ainda vacinar periodicamente os animais domésticos nas áreas endêmicas, mesmo que não haja focos de raiva porque, existindo o morcego hematófago, pode surgir a qualquer momento um novo foco entre os herbívoros domésticos, com prejuízos econômicos graves para o pecuarista e risco de transmissão dessa zoonose a todas as pessoas em contato com os animais infectados.

O quadro seguinte mostra os resultados, obtidos em bovinos na França com o uso de vacinas anti-rábicas produzidas com a tecnologia Merial (Precausta, 1991).

Tabela 1
Incidência da raiva em bovinos vacinados e não-vacinados
Programa de vacinação
Região 54 1971/1972
Região 25 1976-1977
Não-vacinados 0,43% 0,34%
Primovacinados 0% 0,0013%
Revacinados - 0%



Vacinas contra a Raiva dos Herbívoros


A imunização dos herbívoros contra a raiva pode ser feita com vacinas a vírus vivo modificado do tipo ERA/SAD ou vacinas inativadas produzidas em cultura de células.

Nas vacinas anti-rábicas com vírus vivo modificado, a cepa do vírus é atenuada em laboratório, através de passagens sucessivas em ovos embrionados ou em cultura celular.Essas vacinas contêm, portanto, o vírus da raiva vivo, que se multiplica no indivíduo vacinado para estimular a resposta imune. As cepas de vírus vivo modificado mais utilizadas são:

  • Cepa SAD (Street Alabama Dufferin).
  • Cepas derivadas da SAD, como a ERA.

Nas vacinas anti-rábicas inativadas destinadas a herbívoros, o vírus é multiplicado em cultura celular, inativado e adicionado a um ou mais adjuvantes de imunidade. Nessas vacinas, o vírus da raiva está morto. As cepas de vírus mais utilizadas para a produção dessas vacinas são:

  • Cepas a vírus fixo: cepa PASTEUR e derivadas (CVS, G-52).
  • Cepas a vírus modificado: FLURY e ERA.


Vacinas Anti-Rábicas a Vírus Vixo x Inativo


As vacinas anti-rábicas do tipo ERA são utilizadas cada vez menos. Em alguns países, como França, Alemanha, Áustria e Inglaterra, já foram abandonadas há muitos anos. Assim, por que alguns criadores continuam a dar preferência a esse tipo de vacina, apesar das dificuldades de manejo (necessidade de reconstituir o liofilizado e aplicar o produto por via intramuscular)? O motivo é muito simples: no passado, a eficácia das vacinas vivas do tipo ERA era superior à das vacinas inativadas existentes no mercado. No entanto, o lançamento de novas vacinas inativadas de alta tecnologia contra a raiva, produzidas em cultura celular e controladas de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde, permitiu a fabricação de lotes industriais de vacinas inativadas com eficácia em bovinos e eqüinos no mínimo igual à das vacinas vivas do tipo ERA, sem suas desvantagens.

A evolução da qualidade das vacinas anti-rábicas nos últimos anos pode ser acompanhada nas várias edições do Compêndio Americano para Controle da Raiva entre 1974 e 1996 (Tabela 02). Esse compêndio é publicado anualmente e reúne as recomendações dos especialistas em raiva dos Estados Unidos para os veterinários, funcionários da saúde pública e todos aqueles envolvidos no programa nacional de controle da raiva.

Tabela 2
Evolução do compêndio americano para controle da raiva entre 1974 e 1996
Vacinas
Espécies
1974
1980
1996
Vírus vivo
Cepas
ERA/SAD
  Idade
(mês)
Revacinação
(anos)
Idade
(mês)
Revacinação
(anos)
Idade
(mês)
Revacinação
(anos)
Bovinos 4 4 4 1 Não Não
Eqüinos 4 2 4 1 Não Não
Cães 3-4
após 12
3 3-4
após 12
1-3 Não Não
Gatos 3-4 2 Não Não Não Não
Vírus
Inativado
Bovinos - - - - 3 1
Eqüinos - - - - 3o 1
Cães 3-4* 1 3-4* 1-3 3 após 12 1-3
Gatos 3-4* 1 3 1 3 após 12 1-3
(*)1 ou 2 doses com 3-4 semanas de intervalo.

Durante esses anos, pode-se observar:

  • A redução do período recomendado para a revacinação de bovinos com as cepas ERA/SAD de 4 anos em 1974 para 1 ano em 1980.
  • A redução do período recomendado para a revacinação de eqüinos com as cepas ERA/SAD de 2 anos em 1974 para 1 ano em 1980.
  • O cancelamento da indicação das vacinas a vírus vivo produzidas com as cepas ERA/SAD para gatos em 1980 e para bovinos, eqüinos e cães em 1996.
  • O aumento do período de imunidade de algumas vacinas inativadas destinadas a cães de 1 ano para 3 anos entre 1974 e 1980.
  • O aumento do período de imunidade de algumas vacinas inativadas destinadas a gatos de 1 ano para 3 anos entre 1980 e 1996.

Essas mudanças nas recomendações demonstram a evolução da tecnologia de produção de vacinas inativadas e a substituição progressiva das vacinas a vírus vivo modificado pelas modernas vacinas anti-rábicas produzidas em cultura celular.

Atualmente, sabe-se que todas as vacinas anti-rábicas a vírus vivo modificado possuem neurovirulência residual mais ou menos importante, conforme a cepa utilizada e a técnica de cultivo de vírus adotada:

  • A virulência residual é muito perigosa, por ser de difícil avaliação devido aos fenômenos de auto-interferência que podem ocorrer, como verificado por Koprowski (1954) com uma mesma amostra da cepa FLURY HEP que, quando inoculada pura pela via intracerebral, não matou hamsters ou cobaias. No entanto, uma diluição 1:5000 dessa mesma amostra matou esses animais.
  • Segundo Abelseth (1964), a cepa ERA mata camundongos, cobaias e hamsters quando inoculada pela via intracerebral. Pela via intramuscular é patogênica para essas mesmas espécies.
  • Em cães de 4 semanas, a inoculação da cepa ERA por via intracerebral matou 50% dos animais inoculados (Vandevelde, 1974).
  • Em gatos, vacinas produzidas com a cepa ERA podem determinar raiva vacinal.

Esses riscos potenciais fazem com que haja diversas restrições ao uso de vacinas contendo vírus vivo modificado:

  • Especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) recomendam que nenhuma vacina com vírus vivo seja utilizada em seres humanos. E nos animais, devem usar-se vacinas inativadas, sempre que possível (1991).
  • Na França, Inglaterra, Alemanha e Áustria, a prevenção da raiva em animais domésticos só pode ser feita com vacinas inativadas.
  • A edição de 1996 do Compêndio Americano para Controle da Raiva não recomenda nenhuma vacina a vírus vivo modificado para a prevenção da raiva dos animais domésticos.


Tabela 3
Comparação entre os diferentes tipos de vacinas anti-rábicas para herbívoros usados no Brasil
Tipos de Vacinas Inocuidade Revacinação Via de Aplicação Facilidade
de Aplicação
ERA/SAD-a vírus
vivo modificado
Risco de raiva
vacinal (proibida
em alguns
países)
Anual. Alguns
laboratórios
recomendam,
revacinação a cada 3 anos
Intramuscular
(no músculo
da coxa)
Necessidade de
reconstituir
imediatamente
antes do uso
(liofilizadas)
Vírus inativado
produzido em
cultura celular
Inócua Anual Subcutânea ou
intramuscular
Prontas
para o uso



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